BRASIL, 1999, Cor, 35mm, 112min, Drama
Final dos anos 90
Ana Paula (Beth Goulart) vai ao interior de São Paulo recuperar a casa de campo que herdou dos pais, atualmente ocupada por grileiros. Constrangida com a indiferença de seu advogado e com a rispidez da ação policial, ela lembra a última vez que esteve ali.
Final dos anos 60
Aos 17 anos, Ana Paula (Vanessa Goulart) traz a colega de escola Lydia (Luciana Brasil), precoce e exímia pianista, para conhecer o seu reduto em Dois Córregos. As moças passam quatro dias na companhia de Teresa (Ingra Liberato) – empregada de confiança, meio pajem, meio irmã de criação de Ana Paula – e de Hermes (Carlos Alberto Riccelli), o tio que morou no Rio Grande do Sul e que Ana Paula vê pela primeira vez.
Ela descobre que o tio, envolvido com grupos ativistas de extrema esquerda, está escondido na casa enquanto tenta oficializar sua volta ao país, o que o obriga a manter-se afastado dos filhos.
Jovem e imatura, alienada dos acontecimentos políticos que chacoalham o país, Ana Paula procura entender as razões que a distanciam do tio. Lydia, por sua vez, filha de um militar de alta patente, expõe em conversas todos os preconceitos que assimilou do pai, mas encurtará a distância entre seu mundo e o de Hermes por intermédio das músicas que executa ao piano.
A efêmera convivência das ingênuas adolescentes com o amargurado, taciturno e belo clandestino transforma aquele feriado num momento capital de suas vidas, quase um rito de passagem.
Ao mesmo tempo, mostra a Teresa a possibilidade da afeição íntegra e sensual.
Entretanto, um incidente envolvendo um quinto personagem, o sargento Percival (Kaio César), namorado de Teresa, ocasiona a súbita partida de Hermes do sítio.
Final dos anos 90
Ana Paula soluciona só agora o mistério que envolveu o destino de Hermes, homem que amou em segredo durante anos, e resolve finalmente suas diferenças com o passado.
Entre a renúncia e a transgressão
Foi em 1960, algumas semanas após a morte de meu pai, que conheci a cidade de Dois Córregos, no interior de São Paulo. Estudava em um colégio interno em Rio Claro e um colega me convidou para conhecer sua cidade natal. Lembro o impacto provocado pela visão da estação de trem local, uma reprodução fiel, obviamente reduzida, da estação de Marselha, França.
Estação de trens e plataformas marítimas são imagens recorrentes em meus filmes. Como metáforas da percepção de perda, foram as primeiras obsessões imagéticas que me aproximaram do cineasta italiano Valério Zurlini.
Zurlini e Dois Córregos, gênese de meu décimo segundo longa-metragem.
Desde O Paraíso Proibido, cujo personagem interpretado pelo ator Jonas Bloch é um duplo do Alain Delon de A Primeira Noite de Tranquilidade, venho perseguindo exaustivamente a atmosfera desencantada e existencial, os tempos “de um quarteto de cordas” e os desfechos submetidos ao inexorável que tanto caracterizam o cinema de sentimentos de Zurlini.
Escrevi e filmei Dois Córregos tendo como fonte inspiradora a cópia em vídeo de A Moça com a Valise, presente do amigo e escritor Márcio de Souza. Mas, após ver a cópia final pela terceira vez, descubro estarrecido que meu débito é com o filme anterior de Zurlini, o também extraordinário Verão Violento (State Violenta).
Poucos filmes na história do cinema mostraram de maneira tão intensa e poética o momento histórico e a realidade política invadindo o cotidiano sentimental das pessoas.
Assim como Zurlini, também me interesso pelos personagens masculinos à deriva, à esquerda da esquerda, subversivos por sua generosidade obscena e que almejam uma “ordem sem coação” em sua fé irrestrita na utopia. Incompreendidos em seu tempo e fragilizados ao máximo, busco trabalhar estes “heróis” sem a complacência e a afetividade dos meus personagens femininos.
Em Dois Córregos, entre a transgressão de Hermes e a renúncia de Teresa, trafegam a geração do acordo MEC-USAID (Ana Paula e Lydia) e marionetes do AI-5.
Busquei centralizar a “ação” dramática no trivial do convívio entre um homem maduro e angustiado com duas jovens imaturas e uma mulher carente, inspirando-me diretamente nos dolorosos dias em que meu padrinho de batismo passou escondido na casa de campo que meus pais tinham à beira da represa Billings. O expediente de trocar o sexo das adolescentes e a opção pela tônica romântica, à diferença do real, buscou acentuar a idéia de “rito de passagem” e de um processo de desalienação. Mas foi a partir de uma imagem, que me marcou profundamente na puberdade, que o filme começou a existir no papel e no celulóide: alguém escreve cartas para os filhos, justificando seus atos para si mesmo, mas não consegue enviar…
Mais uma vez a música é personagem fundamental de meus filmes. É ela que possibilita existir o entendimento entre personagens antagônicos. Foi um privilégio trabalhar com Ivan Lins e Nelson Ayres. Como costumo filmar com play-back, usando músicas conhecidas como referência, o desafio ao compositor e ao arranjador foi se aproximar ao máximo da sugestão. São preciosas as versões pessoalíssimas trabalhadas a partir de Joe Cocker (You Are So Beautiful) no tema da cena de amor e no John Lennon póstumo (Free as a Byrd) na seqüência da chuva.
Sob a tônica musical, Dois Córregos se inspira em César Frank pela busca de uma atmosfera melancólica e impressionista. Assumidamente um filme triste, como as felicidades efêmeras, mas evitando a todo custo a sedução da chantagem.
ELENCO
Hermes CARLOS ALBERTO RICCELLI
Ana Paula (adulta) BETH GOULART
Teresa INGRA LIBERATO
Ana Paula (jovem) VANESSA GOULART
Lydia LUCIANA BRASIL
Sargento Percival KAIO CÉSAR
Dr. Armando Sumaqueiro LUIZ DAMASCENO
Pimpolho THOMAZ JORGE
Oficial de Justiça SERGIO FERRARA
Motorista Cláudio ANTOUNE NAKHLE
Tânia CRISTINA CAVALCANTI
Mulher de Percival LINA AGIFU
Caseiro do Grileiro (José) ZÉ DA ILHA
Filhos de Hermes INGRID SILVEIRA e IGOR SILVEIRA
Toninho PAULO MENDES
Mãe de Pimpolho JACQUELINE JORGE
Sr. Tenório FRANCISCO CESTARI
Pai de Pimpolho SEBASTIÃO MANOEL DE ABREU
Instrutor de Armas MAURITY FORNAZARO
Guerrilheiros
JOANA CURVO
RITA MARTINS
FABIANA BARBOSA
DÉIA BRITO
SÉRGIO CAVALCANTE
MAURÍLIO TADDEU
MARCELO ARAÚJO (JACÓ)
JOSÉ JERÔNIMO
ANDRÉ MÜRRER
Escrito e dirigido por CARLOS REICHENBACH
Produção SARA SILVEIRA
Co-produção
DEZENOVE SOM E IMAGENS
TV CULTURA
SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA DE SÃO PAULO
Produtora executiva MARIA IONESCU
Diretores de produção CAIO GULLANE e FABIANO GULLANE
Diretor de fotografia PEDRO FARKAS
Operador de câmera PEDRO IONESCU
Montagem CRISTINA AMARAL
Som direto GABRIEL COLL e PEDRO MEJIA
Edição de som EDUARDO SANTOS MENDES
Mixagem JOSÉ LUIZ SASSO
Preparação das atrizes FÁTIMA TOLEDO
Produtora de elenco VIVIAN GOLOMBEK
Assistentes de direção DANIEL CHAIA e SÉRGIO CONCÍLIO
Diretor de arte LUÍS ROSSI
Figurinos ANDRÉA VELLOSO
Música original IVAN LINS
Arranjos e produção musical NELSON AYRES
Música incidental
MARIO GENNARI FILHO
EDUARDO SOUTO
ALEXANDER SKRIABIN
CÉSAR FRANCK
ROBERT SCHUMANN
FERRÚCCIO BUSONI
FRÉDERIC CHOPIN
FRANZ SCHUBERT
Assessoria de imprensa
MARGARIDA OLIVEIRA
FLÁVIA ARRUDA MIRANDA
Distribuição RIO FILME
Filmado nas cidades de
DOIS CÓRREGOS – ESTADO DE SÃO PAULO e CIDREIRA – ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
Negativos
EASTMANCOLOR KODAK
Laboratórios de imagem
revelação e processamento
LÍDER CINE LABORATÓRIOS S.A.
Cópias e internegativos
CFI – CONSOLIDATED FILM INDUSTRIES
Los Angeles – EUA
Blow-up Super 8-35 mm
INTERFORMAT
San Francisco – USA
Laboratório de som
JLS FACILIDADES SONORAS
DOIS CÓRREGOS
foi realizado com o incentivo do PAC – PROJETO DE APOIO AO CINEMA – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA
PREFEITURA DE SÃO PAULO
e PIC – PROJETO DE INCENTIVO AO CINEMA, TV CULTURA
SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA, GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO
EMPRESAS INVESTIDORAS PELA LEI DO AUDIOVISUAL (Lei 8685/93)
Banco do Estado de São Paulo S/A
Banespa S/A Corretora de Câmbio e Títulos
Banespa S/A Corretora de Seguros
Banespa S/A Arrecadamento Mercantil
Banespa S/A Administradora de Cartões de Créditos e Serviços
Sabesp Cia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo S/A
Eletropaulo Eletricidade do Estado de São Paulo S/A
CRT – Cia Riograndense de Telecomunicações
GZT Confecções, Materiais de Construção e Serviços Ltda.
Grazziotin S/A
Música Original
Autoria, piano e teclados – Ivan Lins
Arranjos, regência e direção musical – Nelson Ayres
Supervisão musical – Newton Carneiro
Baixo elétrico – Pedro Ivo Lunardi
Spalla e arregimentação – Mayra Moraes
Flauta – Daniel Allain
Oboé e corne inglês – Marcos Mincov
Trompas – Mário Sérgio Rocha e Adalto Soares
Violinos
Heitor Fuginami
Fabio Brucoli
Helena Imasato
Flavio Geraldini
Nadilson Gama
Mauricio Takeda
Ayres Neto Gacria
Laércio Sinhorelli Diniz
Violas
Adriana Schincariol
Peter Pas
Alexandre de Leon
Violoncelos – Roman Mekinulov e Adriana Holtz
Contrabaixo – Ney Vasconcelos
Vocal
Cidinha de Souza
Maria Rita Kfouri
Dudu França
Carlinhos de Souza
Orquestra gravada no estúdio Be Bop, São Paulo
Engenheiro de Som – Getúlio Junior
Piano e Voz de Ivan Lins
Gravados na Companhia dos Técnicos, Rio de Janeiro
Engenheiro de Som – Eduardo Chermont
Instrumentos eletrônicos e vocais
Gravados na Nelson Ayres Som e Imagem, São Paulo
Engenheiro de Som – Maurício Trindade
Mixado no Estúdio JLS Facilidades Sonoras, São Paulo
Engenheiros de som – Francisco Luis Russo (Zorro) e José Luis Sasso
CANÇÕES
O M da minha mão
Autor – Mário Gennari Filho
Velho Romance
Autor – Mário Gennari Filho
Com autorização de
Casas Editoras Muicais Brasileiras Reunidas “Cembra” Ltda.
Músicos
Toninho Ferragutti – acordeon
Edmilson Cappelutti – violão
Izaias Bueno de Almeida – bandolim
Luís Rabello – bongôs
Gravado no Estúdio Grooveria, São Paulo
Engenheiro de Som – Maurício Trindade
Flying Free
Autores – Ivan Lins e Nelson Ayres
Intérprete – Banda Clube Big Beatles
Edu Hanning – percussão
Babi – bateria e voz
Leo Teixeira – baixo
Saulo Simonassi – guitarra
Mark Fernandez – teclado
Pedro Alacântara – teclado
Gravado no Scalla Studio, Vitória – E.S.
Engenheiro de Som – Armando Sinkozitz
Dois Córregos
Tema de Amor
Autor – Ivan Lins
Voz e Piano – Ivan Lins
Arranjo e regência – Nelson Ayres
Participação Especial
Flugelhorn – Márcio Montarroyos
Voz e piano gravados no Estúdio das Faculdades Santa Marcelina, São Paulo
Engenheiro de Som – José Luis Costa (Gato)
Solos de Piano
Estúdio de gravação – Zabumba
Luciala Brasil interpreta
Eduardo Souto
O Despertar da Montanha
Com autorização de
Casas Editoras Musicais Brasileiras Reunidas “Cembra” Ltda.
Ferrucio Busoni
Berceuse, de Elegia nº 7
Alexander Skrtabin
Flammes Sombres – Opus 73
Prelúdio nº 1 – Opus 11
Prelúdio nº 10 – Opus 11
Prelúdio nº 14 – Opus 11
César Franch
Danse Lente
F. Chopin
Noturno – Opus nº 1
Franz Schubert
Improviso nº 3 em Sol Maior – Andante
Robert Schumann
Valsa Chopin de Carnival
