Pedro Useche

Pedro tornou-se a partir da década de 90 um dos maiores nomes do design nacional. Possui várias premiações e participações em algumas importantes mostras de design no mundo, como a Feira Internacional de Móveis de Milão, Bienal de Design na França, em Saint-Etienne, no Brasil, em 3 Bienais nacionais de design, no Instituto Tomie Ohtake e no Museu da Casa Brasileira.

26.02.2013 • Árvore Generosa, Ethel Leon

O designer Pedro Useche está para lançar, em conjunto com a empresa Taedda, um objeto cativante: o cabideiro chamado Árvore Generosa, que será vendido desmontado em componentes.

Projetada para usar uma placa de pinus certificado, cortada em seu aproveitamento máximo, a Árvore tem montagem fácil, exigindo apenas uma chave de fenda. Dois tipos de parafusos e duas cavilhas são os elementos de ligação entre as partes. A expectative é que os compradores façam a montagem com facilidade.

O cabideiro tem forma final que guarda os princípios que a geraram: os recortes, a estrutura em quebra-cabeças, uma marcenaria simplificada e também uma alusão antropomórfica. Talvez lembre um pouco os esquemas de Bruno Munari em seus ensinamentos para desenhar árvores, uma estrutura central que se abre em galhos.

Aqui são galhos inteligentes, mãos francesas que repetem o desenho dos pés, bandejas que se sobrepõem, orifícios que permitem usos diversos. O antropomórfico a que me refiro não é daqueles de mimetizar silhuetas humanas, mas o de perceber os objetos como nossas próteses.

No projeto de Pedro Useche confrontam-se passado e presente de forma curiosa. Os mancebos tradicionais acomodam roupas e acessórios. Esse cabide é sugestivamente mais ‘multitarefas’, como indicam as necessidades do cotidiano contemporâneo. É um móvel de apoio para as tantas coisas que nos acompanham na vida diária, de celulares a escritos, de barras de cereais a óculos, vitaminas, copos, chaves e cartões. O provisório, antes restrito a meia dúzia de itens, marcava o fora e o dentro de casa. Era apenas apoio para chapéus, guarda-chuvas, cachecóis, casacos…

Agora, a vida cotidiana tem maior lastro de provisoriedade, e essa fugacidade ganhou ares de permanência. Nossa vida é permanentemente provisória; não marcamos compromissos com antecedência sem confirmá-los várias vezes nos últimos instantes…

Acumulamos tarefas sempre em atraso. E é para essas jornadas exaustivas e precárias que a Árvore de Useche foi projetada. No entanto, o fato de ser produzido com esta placa de pinus maciço, os recortes da madeira em formatos da marcenaria tradicional (embora o corte seja feito a laser) nos faz percebê-lo como um móvel de estimação, antigo, sólido. Daí a estranha curiosidade que provoca. Não é daqueles móveis que, readaptados para novas funções, guardam na casca a lembrança do que já foram, como geladeiras antigas transformadas em bares, baús que viram bancos e outros tipos de arranjos que decoradores fazem em nome da conservação de uma memória perdida.

A Árvore é claramente contemporânea, mas o projeto soube tirar partido desse sabor de passado que o pinus e a marcenaria simples imprimem.

O nome Árvore Generosa foi sugerido pelo livro infantil do mesmo nome, do grande cartunista Shel Silverstein.

Ethel Leon, 26.02.2013

20.10.2012 • Banquinho Arepitas, Ethel Leon
O designer Pedro Useche revisita sua própria produção. No começo de suas atividades, sua concepção de móveis era quase escultural, sem qualquer preocupação com economia de custos e outras restrições próprias do design industrial.
 
Agora, com muitos anos de prática e a visão do design na indústria, ele volta a suas formas de anos atrás e as refaz, com a expertise de quem já domina o mundo das grandes séries.
 
É o caso recente do banquinho Arepitas. Useche comenta: “A proposta do encosto da minha primeira cadeira, a Mulher, com a diferença que os discos têm movimento pelo uso de anéis de borracha (utilizados em amortecedores de carro) entre os discos e a estrutura metálica.”  O processo de construção é eficiente, com corte a laser, dobra na prensa e madeira torneada.
 
Convidativo, com o assento em três discos, a redondeza repetida também nos pés maciços e a estrutura metálica quase como uma ossatura que sustenta os ‘músculos’, o banco é orgânico, não porque arredondado, mas porque é quase um negativo, contraforma do nosso corpo.
 
Arepitas, aliás, são bolinhos feitos de farinha de milho, muito populares na Venezuela, onde nasceu Useche. Se na cadeira Mulher, o corpo era o mote do desenho, na perspectiva surrealista, no banquinho, o corpo não é o tema, mas o motivo.
 
Ao contrário de tantos designers que gostariam de entrar nos museus e ganharem aura de artistas, Useche faz o caminho contrário, em favor da produção massiva e de qualidade.
 
Ethel Leon, 20.10.2012
 
Fonte: Agitprop – Revista Brasileira de Design
20.12.2005 • Pedro Useche, Ethel Leon
Pedro Useche formou-se arquiteto na Universidade Central de Caracas, Venezuela. No Brasil desde 1984, começou a projetar e produzir, em uma pequena oficina, móveis com acabamentos diversos e muito emprego de solda, como a cadeira Mulher, sua primeira criação reconhecida publicamente. A necessidade de estocar componentes tornaram-no, mais tarde, um expert em projetos feitos para grande produção. Móveis como a linha Flexus e a cadeira 20R reduzem ao mínimo os materiais, explorando sua resistência. A 20R tem ripas de apenas 3mm de espessura, suporta o peso de uma pessoa e ganha movimento, adaptando-se ao corpo com conforto. A PacMan tem sua estrutura feita de MDF, material muito utilizado para revestimentos.
 
Prêmios (o primeiro lugar, em 1998, no Prêmio Museu da Casa Brasileira com o revisteiro Eixo 7) e mostras vêm se sucedendo e a loja própria no Morumbi – cujo projeto arquitetônico é assinado por Useche – parece pequena para abrigar mais de duzentos itens, entre estantes, cadeiras, mesas, aparadores e pequenos objetos como candelabros e bandejas. Um de seus projetos, a cadeira Costela, foi vendida com exclusividade para a rede de joalherias H. Stern. Ao reduzir componentes e custos, o designer foi descoberto por grandes empresas. A linha TAK de cadeira e bancos foi comercializada pela rede de varejo Tok & Stok.
 
Ethel Leon, 20.12.2005
 
Fonte: Design Brasileiro – quem fez, quem faz – Editora Senac

 

01.2003 • Desconstruindo Sérgio Rodrigues, Evelise Grunow

Um enorme exército de operários-designers espalha-se pelo país, carregando variações dos componentes da poltrona Mole, a primeira peça criada por Sérgio Rodrigues em 1958 que conquistou, em 1961, o primeiro lugar no Concurso Internacional do Móvel em Milão, Itália, prêmio até então nunca recebido por um brasileiro.

Pedro Useche, da Useche Móveis, decompôs para PROJETO DESIGN a mais famosa poltrona de Rodrigues e criou, com o mesmo equilíbrio e força estética marcantes, desenhos que mostram a personalidade individual dos elementos que a compõem: pés torneados de madeira, executados em encaixes de pinos; braços robustos e soltos; o assento do tipo almofadão, produzido nos dois lados.

Nos traços lúdicos de Useche, a “poltrona que não foi mole” – maratona segundo frase do arquiteto Ottó Stupakoff, para quem Rodrigues conquistou lugar de honra na cena do design internacional – é a imagem da poltrona Mole em um campo de batalha, onde o exército da balança instável, mas firme, a cadeira de balanço reinterpretada em couro, e um guerreiro anônimo defendem a vitoriosa poltrona, símbolo da identidade cultural brasileira.

O desconstrutivismo de Useche revela os elementos que, na sua multiplicidade, formam um conjunto coeso, esteticamente forte e estruturalmente bem resolvido: é um exercício de criação que reforça a consistência do desenho original de Sérgio Rodrigues, em que cada elemento se transforma em unidade e, ao mesmo tempo, em parte essencial de um todo que forma uma estrutura única, com caráter simbólico.

A desconstrução, ao mesmo tempo que preserva a essência do projeto e o espaço denso das salas de televisão, dá, ao mesmo, mágicas poltronas aladas.

Evelise Grunow, Editora Executiva, Revista Projeto

Fonte: Revista Projeto n.275

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