“Carlos Reichenbach foi um caso raro, talvez único, de cineasta que amava mais o cinema do que seus próprios filmes. Ele era alto, bem acima da média dos brasileiros na época, e também muito forte, corpulento. Visto à distância parecia um lutador de boxe (o que por sinal ele tinha sido nos tempos de escola). Não sabia não ser gentil. Às vezes, andar uma quadra em sua companhia podia levar um tempo enorme. Para cada pessoa que o abordava tinha uma palavra, uma explicação, respondia a dúvidas, esclarecia alguma coisa sobre cinema. Uma vez estava com ele em frente à antiga Sala Cinemateca, em Pinheiros, quando apareceu Zulmira Ribeiro Tavares, que ficou muito conhecida como autora do romance “O Nome do Bispo”, mas sempre foi muito ligada a Paulo Emilio Sales Gomes. Ela havia escrito uma crítica sobre “Lilian M”, o filme do Carlão que saíra em 1974. Haviam se passado uns dez, talvez doze anos, mas Zulmira fez questão de se desculpar pela crítica, onde julgava ter falado mal do filme. Ela pedia desculpas verdadeiramente, acredito que tivesse mudado mesmo de opinião. Pedia desculpas a nós dois. Eu disse que só havia montado o filme. Mas ela estendia as desculpas a mim também. Zulmira era uma raridade: tão gentil e educada quanto Carlão.
O apelido no aumentativo vinha de seu tamanho, é evidente. Por isso, quando fui pela primeira vez à casa do Carlão, me surpreendi que lá ele não era Carlão, e sim Carlinhos. Assim o chamava sua mãe, dona Lula, assim o chamaria depois sua esposa, Lygia. Quando escrevíamos um roteiro em conjunto, eu costumava chegar na casa dele lá pelas 9 ou 10 da noite. Quase sem perceber, começava uma conversa. Sobre filmes, invariavelmente. Ela seguia. Ele conversava e fumava. Eu também, mas menos. Começávamos em geral por algum Samuel Fuller, seguia pelo Sganzerla, depois entravam os projetos, os amigos, a última aprontada do Jairo Ferreira, não importa. Carlão gostava de gostar de filmes. Às vezes demais. Eu reclamava: “Pô, Carlão, esse não, esse não dá”. Ele ria. Em geral defendia o filme. Às vezes eu concordava, outras vezes não, de vez em quando ele é que concordava comigo. Desses encontros levo alguns postulados luminosos que ele costumava retomar. Um deles: se todo mundo fala bem de um filme, ou é genial mesmo ou você sai pensando que não é tudo isso. Se todo mundo fala mal às vezes a gente vai lá e vê o contrário.
Um outro é uma observação mais profunda do que parece sobre o país: “O público vai ver filme brasileiro quando o país vai bem; quando entra em crise, não vai”. Não estava falando de falta de dinheiro ou algo do tipo, e sim da relação de estima pelo Brasil nos momentos melhores e de certo desprezo nos maus momentos. E isso se relaciona diretamente com o cinema, porque é o que mostra, de maneira implacável, o país que somos, o que pode ser detestável ou adorável nele, em sua cultura, nas pessoas…”
